domingo, 23 de dezembro de 2007

Blues e reencontros

A noite desse sábado foi surpreendente. Aproveitando a rápida estadia do Bruno no Rio, procuramos um showzinho para assistir e nos encontrarmos.

Descobrimos o show do Álamo Leal no Espírito das Artes, em Botafogo, e marcamos lá com mais alguns amigos.
Cheguei primeiro no lugar e, conforme fui entrando, perdi a conta de quantos músicos de blues estavam presentes. De cara identifiquei a banda do Álamo: Otávio Rocha (Blues Etílicos) na guitarra slide, Ugo Perrota (ex-Big Allanbik) no baixo e Beto Werther (ex-Big Allanbik) na bateria. Peguei uma mesa grande.
Na mesa ao lado sentaram Flávio Guimarães (gaitista do Blues Etílicos), Maurício Sahady (guitarrista) e Arnaldo Brandão (baixista atualmente nA Bolha), junto com o empresária da Delira Musica.

Ah sim. Na minha frente estava o cantor Ricardo Werther (ex-Big Allanbik), talvez o melhor cantor de blues do Brasil.
Estávamos cercados pela nata do blues carioca. Tudo isso para um simples show chamado Blues de Natal do Álamo Leal que eu sinceramente não achei que fosse bombar desse jeito. Para minha sorte, errei feio.

Toda essa galera deu canja no show, que não poderia ser outra coisa senão excelente. Todos tocaram bem à vontade diversos clássicos do blues. Mesmo com Flávio Guimarães quase batendo com a cabeça no teto sobre o palco... O número que sacudiu o público foi Hoochie Coochie Man com Ricardo na voz. Álamo, além de ótimo guitarrista e cantor, tem a capacidade e a generosidade de juntar várias estrelas da música num só palco sem desandar o blues.

No final do show, reencontrei o mestre Arildo Bluesman, que muita gente que freqüenta a cena do blues carioca deve conhecer. Fui apresentado à cantora de blues e atriz, Rosane Corrêa, linda, simpática e minha vizinha (estou louco para ouvi-la cantar). De quebra fui convidado a viajar até Tiradentes/MG para assistir à 3ª Temporada de Blues em Tiradentes de 05/01 a 09/02 de 2008. Nos dias 11 e 12 de Jan/2008 a banda Yellow Cab Blues se apresenta com seus convidados.

A noite fechou com o reencontro de um velho amigo que não via há quase 14 anos. Eram tantos assuntos que Arildo apelidou o grupo de “pau-de-enchente “. A cada 3 passos parávamos para conversar mais.
Muitas boas histórias numa noite repleta de surpresas.

No próximo sábado o point do blues vai ser no Estação Afonso Pena, na Tijuca, com Big Gilson e convidados. Outro show imperdível.

Até lá e feliz Natal.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

The Cult - Born Into This


Em 2001, a banda The Cult lançou seu último álbum de inéditas, pavimentando um caminho de pedras duras e pesadas, ou seja, o disco era pesado pacas.
Misturava elementos de hard-rock com muita distorção e outros poucos elementos característicos dos trabalhos do Cult. Era difícil conectar o álbum com os trabalhos anteriores da banda. A voz de Astbury soava como Astbury, mas a guitarra de Duffy era outra. Isso somado aos tambores precisos de Matt Sorum, que logo sairia para formar o Velvet Revolver com seus antigos companheiros de Guns N´Roses. By the way, é um ótimo álbum.

Pois bem, tudo levava a crer que o caminho seria seguido, levando a banda do Beyond Good and Evil (2001) para um disco ainda mais pesado e sombrio.
Mas na música nada é definitivo e Ian Astbury e Billy Duffy deram meia-volta e lançaram um álbum clássico. Que soa como uma evolução suave e natural do álbum The Cult (1994), aquele do cabrito montês preto na capa. Um álbum de rock dançante e agradável como os outros da banda.

É sempre bom ouvir coisas novas de uma das minhas bandas preferidas (talvez a única banda realmente rock´n roll dos anos 80) e ver (ouvir) que continuam fazendo um rock competente e, não surpreendentemente, melhor do que a grande maioria das bandas novas.

Os destaques do álbum são Tiger In The Sun, um rock quase zeppeliniano com a voz grave de Astbury no lugar dos vocais agudos de Plant, Dirty Little Rockstar com um quê de ZZ Top, e também para Holy Mountain, uma música romântica e melodiosa.


Billy Duff no Metropolitan/Atl/Claro/CitiBank Hall em Dezembro de 2006


Ainda sinto uma ponta de pena pelo último concerto do Cult no Rio de Janeiro. Com público reduzido no CitiBank Hall. Um repertório excelente só de sucessos (antes do lançamento desse álbum novo) e boa performance, com exceção de Ian Astbury que derrapou em algumas músicas. Esse show foi parte da turnê Return To Wild, uma espécie de reunião da banda para aquecer e se prepar para este Born Into This.
Até Janeiro deste ano, Astbury ainda estava envolvido com a banda The Doors, onde assumiu os vocais e excursionou pelo mundo cantando os versos de Jim Morrison.

Agora o Cult está em turnê do Born Into This, lançado em Outubro de 2007.

A formação é Ian Astbury (vocais), Billy Duffy (guitarra), John Tempesta (bateria), Chris Wise (baixo), Mike Dimkich (guitarra base). Dimkich já tinha trabalhando com a banda no Beyond Good and Evil.

Espero que pintem aqui em 2008 e façam um grande show. Enquanto isso vou esperando sentado que lancem o álbum Born Into This no Brasil.
Paz e Amor.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fim do Ira! e interdição de Nasi


Logo após o lançamento do seu último disco "Invisível DJ", álbum que veio no rastro do "Acústico MTV", bancado pela própria emissora, a banda Ira! surpreendeu seu público ao interromper a turnê do disco.
Anunciaram umas "férias".
Logo depois o vocalista Nasi (Marcos Valadão) informava à imprensa que estava deixando a banda.

Show 'Invisível DJ'


Até aí, tudo normal.
Bandas acabam a toda hora, e nessa primeira década do século XXI já se foram várias.

Só que a coisa se mostrou um pouco mais complicada no caso do Ira!.

O empresário da banda, e irmão de Nasi, Airton Valadão Júnior, tomou as dores da banda, na esperança talvez do Ira! continuar sem Nasi.
Nasi pediu uma revisão nas prestações de contas da banda, o que ofendeu o irmão empresário. Ultrajado, Airton articulou junto à família contra o irmão vocalista.

O pai de Nasi entrou com uma Interdição contra o filho. Numa tentativa de assumir o controle jurídico e patrimonial de Nasi.
Parece claro que o irmão Airton tenta impedir a auditoria de Nasi sobre as contas da banda.

Os outros membros da banda se escondem e não opinam sobre o caso. Edgar Scandurra, que várias vezes ameaçou deixar a banda, hoje se faz de vítima da "loucura" de Nasi. E diz que a banda deve continuar sem o vocalista.

Scandurra e Nasi, líderes do Ira!


Como todos sabem, em 1997 Nasi se internou, por vontade própria, numa clínica de reabilitação para se livrar do vício de cocaína. Depois de completar o tratamento, Nasi ingressou num grupo de apoio para ex-viciados que chegou a coordenar.
Nasi apresenta seu exame toxicológico para a imprensa, onde mostra que está "limpo". Alega que desde o dia que entrou na clínica de reabilitação nunca mais usou cocaína. E vai mais além, desafia os outros integrantes do Ira! e até seu irmão, empresário da banda, a apresentar um exame desses para a imprensa.

Nasi pode não usar mais cocaína, mas consome bastante álcool.
Uma ligação para o irmão Airton, gravada após o anúncio de sua saída da banda, mostra claramente que ele estava bêbado e furioso. Ameaçou e xingou o irmão com veemência.
Num momento de porre, esse tipo de comportamento é até compreensível. Explica, mas não justifica.
Serviu apenas de argumento para o pedido de interdição da família contra Nasi.

Aqui cabe uma consideração: consumir álcool não é ilegal, mas fazer ameaças sim.

De toda essa baixaria da família Valadão, resta para o mundo da música o final de uma banda importante do rock brasileiro.

Scandurra anunciou que eles continuam, com o nome provisório de Trio.
Sinceramente não acredito em sobrevivência para o restante da banda, não por falta de qualidade técnica, mas sim pelo desgaste que já era grande entre todos os membros.

Mais um golpe duro no bom e velho rock´n roll.
De repente rola um Ira! reunion daqui a uns 10 anos.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

10 anos de Rastropop no Odisséia

Segunda-feira chuvosa, nada para fazer... na verdade tinha sim.
A festa de comemoração de 10 anos da Rastropop, com shows das bandas Cabaret e Netunos, rolou no Teatro Odisséia.

O Cabaret se apresentou com empolgação, mas com alguns problemas no som. Os problemas foram sendo solucionados ao longo da apresentação.
Foi legal ver o novo guitarrista da banda em ação em sua segunda apresentação com a banda (a primeira apresentação tinha sido na noite anterior, no próprio Teatro Odisséia). Phil Spider (Felipe Aranha) foi adicionado à banda, dando mais consistência ao som hard-rock do Cabaret ao vivo e poupando o vocalista de tocar guitarra em alguma músicas.

Phil Spider no centro do palco.



Cabaret fez um show curto, para uma platéia um tanto surpresa. Mais público de boate (festa) do que de rock'n roll.

Marvel em pose "heterossexual sensível".


Os Netunos tocaram em seguida. Descarregaram seu rock-surf-music anos 60 com energia.





Vocalista do Cabaret se empolga e sobe no palco para cantar com os Netunos.


Os shows foram intercalados por diversos DJs, entre eles um tal de Taw. Como pra mim DJ é igual bunda, todo mundo tem, mas poucas são realmente gostosas, não fazia muita diferença. O som dos DJs foi razoável, nada que irritasse, mas também nada além do normalzinho.
No terceiro andar rolava uns VJs com vídeos e mais gente do que no térreo. Com o rock rolando embaixo, nem perdi tempo com o terceiro andar.

Não fiquei para ver o último show Taw + Groove Box, afinal era segunda-feira.

Programa legal para um segunda-feira meio morta. O saldo acabou positivo. O Cabaret com duas guitarras deve ganhar mais consistência sonora, à medida que o novo guitarrista for ganhando confiança.

Rolou ainda um CD promocional com várias bandas do selo Rastropop. A conferir.

DJs, VJs e afins, não obrigado. Eu quero é rock!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Fotos da travessia Rio - Ilha Grande

Conforme prometido, seguem as fotos da viagem.

A tripulação do Koala: eu, Adriano e Paulo.


Navegando ao amanhecer, firme no rumo.


Esquece o Abraão, vamos para Palmas. Perdido?


Adriano, o gárgula.


Manhã cinza na Ponta Grossa (final da restinga).


Minha vez de dormir. Sistema Bercinho em ação.


Palmas.


Praia Grande, Palmas.


Paulo acordando na enseada de Palmas.


Partindo de Palmas.


Deixando o paraíso.


Adriano passeando na proa.


Velejar é preciso.


Rumo à Ponta Leste.


Paulo no contra-peso.


Adriano e sua pescaria.


Até a próxima.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Reggae em Palmas

Nesse fim de semana prolongado que passou, eu tinha duas opções: ficar no Rio e assistir ao Festival de Blues do Circo Voador ou viajar até a Ilha Grande de veleiro.
Balancei por causa do show do André Christóvam, que não vejo há muitos anos, mas fiquei com a segunda opção.

Saímos no veleiro do Adriano, o Koala, na quinta-feira por volta de meia-noite. Deixamos a Urca com a ameaça de sudoeste pairando sombriamente no ar. Bateu um sudoeste sim, mas foi fraquinho.
Fizemos turnos com 1 tripulante dormindo por vez. O primeiro a capotar foi o Paulo, que acordou por volta das 4:00, quando o Adriano sucumbiu ao sono. Por volta das 7:00, já de dia, foi a minha vez.
Adriano e Paulo ficaram com a melhor parte. Enquanto eu dormia bateu um vento norte forte, o que fez com que o Koala avançasse muito rápido pela Restinga da Marambaia. Quando eu acordei já tinha passado o vento e estávamos na Ponta Grossa.
No caminho decidimos ir para Palmas em vez de ir para o Abraão.

A chegada em Palmas foi tranqüila. Chegamos às 13h, ancoramos bem no canto esquerdo, perto da trilha para Lopes Mendes. Demos uma caminhada até a Praia Grande para almoçar no Camping do Alexandre. A coisa estava animada. Teria um showzinho de noite com uma banda que tocaria reggae, mpb e um pouco de forró, de acordo com uma das campistas.
O clima me lembrou aquela música "Um Lugar do Caralho" - gente bonita e super-chapada.

Trouxemos o Koala para dormir no lado direito de Palmas, para podermos passar a noite ali perto.
Desembarcamos no pier, mas o Adriano achou melhor ancorar o barco em frente ao camping, depois de alguns caiçaras botarem pilha que chegariam mais barcos de noite e nós não poderíamos deixar o barco atracado.
Essa ancoragem valeu um mergulho e uma nadada até a praia para o Adriano.
O Alexandre nos recebeu muito bem como sempre. Tomamos banho e ficamos por ali tomando umas cervejas até a hora do show.

A banda que tocou era formada por zabumba, caixote, violão, guitarra, baixo e flauta transversa. Os musicos se revezavam na zabumba, violão e vocais. Um deles tocou gaita também. Surpreenderam pela qualidade, tocando reggaes em inglês e português (muita gente pedindo Roots, numa referância ao Natirruts), algumas MPBs como Jorge Ben Jor e alguns xotes. Rolou até um blues do Baia e Rockboys. Tudo a ver.

Lá pelas tantas, depois de jantarmos uma porção de peixe frito com algumas cervejas, o Paulo se animou de ir buscar a garrafa de uísque no barco. Foi nadando, pois o Alexandre do camping não achou o bote dele para nos emprestar.
Numa determinada hora, eu já havia dado umas apagadas de copo na mão, mas resolvi não dormir mais e sim "transcender".

Entre besteiras e frases bêbadas, curtimos um som muito bem tocado e com boa qualidade do equipamento, apesar da aparência meio improvisada da apresentação. Ajudou a galera a se soltar, dançando e se divertindo. Iluminação de tochas na areia e noite com temperatura agradável.
Tocaram até a última pessoa de pé, mas nós tivemos que ir dormir antes do fim.
Mais uma nadada até o barco para o Adriano.

A travessia Rio - Ilha Grande cobra o seu preço.
Mas é barato para a beleza da Ilha.
Acordar num dia ensolarado em Palmas e partir para Angra velejando é como aquela propaganda de cartão de crédito.

PS: assim que o Paulo me mandar as fotos eu publico aqui.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

No beco escuro explode a violência

Tudo bem, não era um beco, era a rua do meu amigo Aruan, mas era escura. A violência não foi tão dramática assim, abriram o meu carro e roubaram uma bolsa preta, tipo pasta.
O prejuízo? Bom, para entender o prejuízo é preciso esclarecer algumas coisas.
Fui até lá para jogar roleplaying game (é roleplaying Aruan, não errepegê!), portanto levei 4 livros grandes, pesados, de capa dura que juntos, dentro da bolsa preta deviam se parecer com um laptop. É a única explicação para alguém roubar isso.

O prejuízo foi grande em reais. Uns R$300 de livros, R$200 da frente do rádio, R$50 das chaves de casa (pois é, perdi as chaves de casa de novo!) e uns R$60 em dados poliédricos de plástico.

De tudo issso, o que mais doeu foram os dados. Eu tinha esses dados desde 1988 quando comprei meu primeiro RPG (RPG não, roleplaying game), o Dungeons & Dragons basic set que vinha numa caixa vermelha e acompanhava um conjunto de 6 dados multifacetados. Comprei na livraria Malasartes na Gávea, a pioneira em trazer esses jogos para o Rio.

Existe uma chance do ladrão saber ler em inglês, se interessar pelos livros e abandonar o crime, tornando-se um culto jogador de roleplaying game. Quem sabe um dia estaremos jogando juntos.

A frente do rádio CD/MP3 do carro foi o item mais caro (individualmente), porém duvido que o ladrão consiga vender muito bem. A frente tinha um pino de plástico quebrado (obra do Danzo) e eu tinha consertado colocando um parafuso com araldite no lugar. Espero não encontrar para vender a minha própria frente, pois não sei nem o que eu farei...

Eu sei que esse tipo de furto de objetos dentro de automóveis é bem comum nas grandes cidades, mas nunca tinha acontecido comigo. Como muitos já devem saber, a sensação é péssima.

Curioso como o ladrão abriu o carro sem quebrar nada. Me disseram que existe uma ferramenta que faz isso. Uma haste que se enfia na fresta da porta e puxa-se a tranca. Fiqueio curioso sobre isso, vou tentar fazer o experimento de arrombar o meu próprpio carro. Talvez eu consiga bolar alguma coisa que evite esse tipo de roubo.

A violência explodiu no beco escuro, mas ao contrário da música dos Paralamas, eu não estava preparado.
O mundo continua mau.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Glenn Hughes emociona o Circo Voador


Dizer que ontem foi uma grande noite de rock seria óbvio demais. Foi inesquecível, uma dos melhores shows que já vi no Circo Voador. E isso não é pouco, contando The Wailers, Buddy Guy, Barão Vermelho, Paralamas, Paul Di'Anno, etc.

A noite começou do lado de fora, numa estranha e civilizada fila para entrar no Circo Voador, que atrasou a abertura dos portões em 45 minutos (o Circo, não a fila).
Foi quando percebi que havia perdido as chaves de casa, provavelmente caíram do bolso no ônibus. Liguei para casa para avisar e assim acabei com a noite da patroa que iria ao cinema.
Na fila, um casal puxou papo, curiosos sobre o Circo Voador pois nunca tinham ido. Aley e Eva. Gaúchos. Ele um músico (Aley Pop Zen) que veio direto de Porto Alegre para ver o Glenn Hughes e ela moradora da Barra da Tijuca. Papo vai, papo vem e descobrimos que temos alguns amigos em comum - componentes da banda Soul de Quem Quiser. Aley se mostrou um grande fã do Hughes e estava preocupado com a quantidade de gente que poderia entupir o Circo.
Nem tanto. Havia um bom público, um pouco mais de mil pessoas.

No palco ainda vazio, notamos duas baterias. Uma grande e central e outra menor no lado do palco. Banda de abertura surpresa.
A banda de abertura Escaleno fez um show como manda o figurino: curto e direto. Tocaram bem suas músicas próprias, o que mostrou personalidade.
Com altos e baixos no seu repertório, destaque para uma canção chamada Cigarros e Bourbon, um hard-blues de boa qualidade. Algumas baladas dispensáveis e um encerramento com Black Night e Day Tripper. Nada mal. Esquentaram o público.

Na montagem do palco, o próprio tecladista da banda testava o teclado. Alguns fãs mais ligados tiraram fotos dele.

Glenn Hughes entrou no palco a mil, soltando poderosos agudos, abrindo o show com uma seqüência matadora: Stormbringer, Might Just Take Your Life e uma terceira que falava algo como "got to be free" (não identifiquei).

Na quarta música rolou a primeira historinha da noite. Hughes contou "Essa música surgiu quando eu fui até a casa do Ritchie e começamos a tocar. Uma idéia que se tornou o embrião do álbum Burn...". Saiu do palco deixando o guitarrista J.J. Marsh sozinho, tocando quase um minuto de improvisações interessantes. Nesse momento eu pensava "é ela (a música)". A banda retorna e J.J. solta o poderoso riff de Mistreated, entra o bumbo, entram baixo e teclado, e Hughes solta a poderosa voz "I've been mistreated...". Não tinha ninguém para eu dar uma cabeçada na hora, por isso mandei uma mensagem de texto para meu amigo Bruno. Algo como "Mistreated! Macacos me mordam!".

Tocou algumas do seu disco novo Music For The Divine.
Sua músicas novas são rock funqueados que lembram o Living Coulor e até o Red Hot Chili Peppers. Ele mesmo definiu como funk-rock. É o estilo característico dele, que marcou também sua fase no Deep Purple, principalmente no Come Taste The Band, este sem o Blackmore.
Contou a segunda historinha da noite sobre sua namorada que fugiu com seu melhor amigo e dessa forma o ajudou a compor boas canções. Anos mais tarde reencontrou ela e o amigo (me sopraram que era o John Lord), agradeceu por ela tê-lo deixado. Essa historinha teve tradução simultânea do tecladista Ed Roth que desenferrujou um pouco o seu português desnecessariamente (ele é americano filho de brasileira).
Rolaram ainda outras do Deep Purple como Gettin' Tighter e You Keep On Moving do Come Taste The Band. Vocais precisos, agudos muito altos, alguns gritos com muita duração, do começo ao fim do show - com tudo isso qualquer vocalista de 55 anos teria "pedido pra sair" logo no primeiro minuto. Glenn Hughes segura com facilidade e simpatia.

No bis Hughes veio com seu último hit Soul Mover seguido de Burn, outro clássico do Deep Purple bem executado e cantado.
Grande final.
Foi muito bom ouvir as músicas do Deep Purple que o Deep Purple não toca (acho que o Gilan não quer cantar), uma espécie de show complementar.



Hughes disse que vai tocar de novo aqui em Junho do ano que vem, e ainda prometeu tocar duas músicas que estavam num cartaz segurado por fãs bem no gargarejo do palco. Estarei lá.

Ainda escuto... QUEIMA!

domingo, 28 de outubro de 2007

Meus melhores CDs dos últimos 3 anos

Há algum tempo queria listar os últimos excelentes Cds que caíram na minha mão.
Vou listar os melhores dos último 3 anos. Se alguém tiver algum a acrescentar ou quiser discordar, manda um comentário.

Angel of Retribution - Judas Priest
2004 - Rob Halford retorna à sua banda de origem para cantar um dos melhores álbuns de Heavy Metal de todos os tempos. Acha exagero? Pois eu não. O álbum soa clássico, tocado pela mais clássica banda de Heavy Metal em atividade do planeta. Mais clássica até que o oitentista Iron Maiden. O álbum parece saído do final dos anos 70 diretamente para o século 21. Coisa raríssima neste desgastado gênero musical. Destaque para as faixas Judas Rising, Revolution (a melhor do disco), Angel (baladão romântico) e Lochness.


Baladas do Asfalto & outros blues - Zeca Balaeiro
2005 - Baleiro lança o seu quinto álbum de inéditas, logo seguido por um álbum ao vivo. Recheado de pérolas como Cachorro Doido, Meu Amor Minha Flor Minha Menina e Alma Nova, Zeca Baleiro mostra quem é o atual mestre da MPB. Destaque também para a citação dos Mutantes - bom gosto que se repetiu no álbum ao vivo com Secos & Molhados.


Negro Amor - Toni Platão
2006 - O cantor, dublê de radialista esportivo, aprofunda suas raízes na música popular brasileira sem renegar suas origens roqueiras dos anos 80. O resultado é um excelente disco, com arranjos acústicos complexos e modernos. Méritos para Toni e sua banda composta de músicos competentes e experientes. Dessa vez a Som Livre deu uma dentro. Destaque para a música título Negro Amor de Caetano Veloso, além de Mammy Blue e Louras Geladas. Toni Platão impõe sua marca de intérprete e faz esses antigos sucessos tornarem-se novas músicas.


Wolfmother - Wolfmother
2006 - O trio australiano mostra mais uma vez que na terra dos cangurus rola um rock´n roll de primeira. Mostrando forte infuência de Black Sabbath e Led Zeppelin, a banda é liderada pelo guitarrista e vocalista Andrew Stockdale. Um debut clássico para a banda. Mal posso esperar pelo segundo álbum.
Destaque para Dimension, White Unicorn e Woman, as três abrindo o CD em seqüência avassaladora.


Cabaret - Cabaret
2006 - Já falei muito sobre essa banda, mas faltou dizer que o álbum de estréia é bom demais. Bateria viva e precisa, baixo marcante e guitarra na medida certa do hard rock, tudo isso sustentando uma ótima performance e voz. Com maturidade e segurança Cid Boechat (sustituído por Bruno Fochi), Marcelo Caldas, Pedro Carrilho e Márvio Rafael mostram como se faz um verdaderio álbum de rock´n roll. Aqui tem uma ótima resenha sobre o disco e a banda.

Agora estou ouvindo o novo do The Cult, Born Into This.
Também o novo dA Bolha, É Só Curtir.
Se eu gostar eu faço um post sobre esses.
Até mais. Hoje tem Glenn Hughes no Circo!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Blues romântico

Esse é o meu blues preferido (dentre os que eu compus).
Foi escrito em Abril de 1994 e acho que foi um dos últimos blues que eu fiz.
Não tinha nada para postar, então vou requentando algumas relíquias...

Não Me Deixe Aqui Sozinho
(Yuri Kauss) - versão para 'Don´t Leave Me' de Buddy Guy

Não, não me deixe, baby
Não me deixe aqui sozinho
Não, não me deixe, baby
Não me deixe aqui sozinho
Fiz esse blues sofrendo
Estava quase amanhecendo

Costumava ficar em casa
Sem ter nenhuma atenção
Por que não pensa em mim, baby
E acalma meu coração?

Não me deixe, baby
Não me deixe aqui sozinho
Esta noite ainda há pouco
Me fez amor me deixou louco

Tentei dormir esta noite
Não pude pregar os olhos
Não, não sei o que acontece
Minha mente não te esquece

Não me deixe, baby
Não me deixe aqui sozinho
Me acostumei com seu carinho
Não me deixe aqui sozinho

Minha mãe tentou me criar
Para ser um bom rapaz
Agora você me estragou
Maltratou até demais

Não, não me deixe, baby
Não me deixe aqui sozinho
Sem você aqui comigo
Minha vida não faz mais sentido

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Celso Blues Boy no Circo Voador

Na sexta-feira fui assistir a mais um show do Celso Blues Boy. Para mim é sempre bom vê-lo e ouvi-lo ao vivo, mesmo depois de ter assistido a mais de 100 shows dele (essa é a minha conta por alto. Há controvérsias).
Até aí nada de mais. Nem iria postar um comentário sobre o show, mas o post do Jamari França no seu blog do Globo Online me incomodou um pouco.

Vamos aos fatos.

O show era e sempre foi do Celso Blues Boy. O Celso era a atração principal da noite, ou headliner no termo em inglês. Toda a divulgação do Crico Voador deixa isso bem claro.

CELSO BLUES BOY
Show de ABERTURA: Jefferson Gonçalves e banda
Show de ENCERRAMENTO: A Bolha

Show de encerramento não é atração principal. É um show DEPOIS do show.

Esclarecido isso, posso dizer que foi um bom show, apesar de curto. Qualquer show do Celso Blues Boy com menos de 2 horas de duração é curto. Uma hora e meia é bem curto.

Jefferson Gonçalves fez um show bom. Não ligo muito para o som desse gaitista. Apesar de achá-lo tecnicamente bom com o instrumento e de ele ser uma cara simpático (conversei com ele uma vez no Nectar), nunca ouvi nada que realmente acrescentasse. Acho que falta um pouco de vontade para criar e compor alguma coisa relevante. Tirando isso, o cara toca bem e a banda que o acompanha é muito boa também.

Celso Blues Boy entrou tocando a abertura clássica "Tempos Difíceis" com sua banda carioca de apoio (ele tem outra banda de apoio em Santa Catarina), a mesma que o acompanhou na temporada no Café Etílico com exceção do baterista. Aliás o baterista atual é excelente. Se alguém souber os nomes dos componentes me passa (acho que o guitarrista tem o apelido de Gargamel).


Celso mesclou alguns sucessos como "Damas da Noite", "Marginal" ,"Amor Vazio" e "Onze Horas da Manhã" com músicas novas como "Quem Foi que falou (que acabou o rock'n roll)" e "Casa da Luz Vermelha". Não faltaram clássicos como "Fumando Na Escuridão" e o bis esperado "Aumenta Que Isso Aí É Rock'n Roll".
Musicas bem executadas, com solos competentes do Celso que cantou pouco, bem pouco, deixando para o público a maior parte dos versos de suas músicas antigas. As participações de Big Joe Manfra (guitarra) e Ivo Pessoa (voz), além do Jefferson Gonçalves (gaita) foram boas.
Depois do show do Celso, o público dispersou, o que já era esperado pela organização do Circo Voador e totalmente sabido pela banda A Bolha.

A Bolha entrou no palco lá pelas 3 da manhã e se apresentou de forma consistente. Tocou alguns clássicos da banda dos anos 70 como "Um Passo à Frente", além de outras como "Não Pare Na Pista" de Raul Seixas. Música da mesma época, mas que parece ter entrado no repertório (e no disco novo) por influência do baixista Arnaldo Brandão, que esteve recentemente envolvido no projeto Baú do Raul, além de ter tocado com o mesmo nos anos 70, logo após sair da Bolha. Arnaldo retorna à banda para reviver o Mark II da Bolha (levando-se em consideração a fase The Bubbles). É uma boa adição à Bolha tanto no quesito técnica quanto presença de palco. Os outros membros são: Pedro Lima, Renato Ladeira e Gustavo Schroeter.


Saldo bem positivo da noite. Ver veteranos como o Celso Blues Boy lançando novas músicas e o retorno da setentista Bolha mostra que o rock'n roll agoniza, mas não morre.

É isso aí, crianças. Dinossauro que anda é que faz o chão tremer.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Canção de ninar

Era uma vez um elfo encantado
Que morava num pé de caqui
Em cima morava um duende safado
Que vivia fazendo pipi
Um dia o elfo se aborreceu
E na porta do duende bateu
Foi nessa ocasião
Que eles então
Se casaram

Veja aqui uma captura tosca desse trecho do filme.

(Extraído do filme de animação 'O Bicho Vai Pegar')

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Ateu, graças a Deus

Para quem achava que eu jamais voltaria a pregar o ateísmo, pode se surpreender, assim como eu, com o resultado da minha leitura do livro "Deus, um delírio" do consagrado autor inglês, radicado nos Estados Unidos, Richard Dawkins.
As calorosas discussões filosóficas ficaram para trás, mais precisamente em 1990, nos bancos do térreo do Bloco 'E' do CEFET. Quando certa vez, um amigo de turma, apelidado de Kiko, um ateu convicto e combatente (na época), fez uma colega crente chegar às lágrimas numa discussão sobre Deus. Bons tempos aqueles (coisas da idade).
O livro faz qualquer um repensar suas posições religiosas (ou anti-religiosas). Apesar de ser um ensaio, não é uma leitura maçante. Pelo contrário, empolga pela profusão de idéias e argumentos inteligentes.
Sei que não estou mais na idade de perder amigos por causa de idéias, mas talvez ganhe um ou dois por causa delas.

Reproduzo abaixo a tabelinha para medir o seu nível de "crença" do capítulo 2:

1- Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus existe. Nas palavras de C. G. Jung, "Eu não acredito, eu sei".
2-Teísta de facto. Probabilidade muito alta de Deus existir, mas que não chega aos 100%. "Não tenho como saber com certeza, mas acredito fortemente em Deus e levo minha vida na pressuposição de que ele está lá."
3- Tecnicamente Agnóstico, com tendência ao teísmo. Probabilidade maior que 50%, mas não muito alta. "Tenho muitas incertezas, mas estou inclinado a acreditar em Deus"
4- Agnóstico completamente imparcial. Exatamente 50%. "A existência e a inexistência de Deus têm probabilidades extamente iguais."
5- Tecnicamente Agnóstico, mas com tendência ao ateísmo. Chance inferior a 50% de Deus existir. "Não sei se Deus existe, mas estou inclinado a não acreditar."
6- Ateu de facto.Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. "Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá."
7- Ateu convicto. "Sei que Deus não existe, com a mesma convicção com que Jung 'sabe' que ele existe".

É difícil encontrar muita gente na categoria 7, mas a categoria 1 é bastante populosa.
Durante muitos anos eu fiquei na categoria 5, hoje estou firmemente no centro da categoria 6. Se você, leitor, quiser expressar sua categoria nessa questão, use o link de comentários abaixo.

Polêmicas à parte, o livro é um ensaio defendendo o ateísmo. Por isso mesmo é uma leitura altamente recomendada para os teístas. Deve fazer com que essa gente pense um pouco sobre seus radicalismos arcaicos, ou, no mínimo, fique ofendida. O que já é lucro.
Será que ficar feliz com uma possível ofensa tomada por um teísta é muita mesquinharia? É sim. Mas fica de revide pelo enorme preconceito desferido aos ateus no Brasil e no mundo. Só para defender minha opinião previamente de possíveis ataques, leia 10 Mitos e 10 Verdades sobre o Ateísmo.

"Não julgueis e não sereis julgados. Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos, com a mesma medida com que medirdes."
- Mateus 7, 1-5.
Essa singelas palavras de Jesus segundo o Evangelho de Mateus são as mais ignoradas pelos Cristãos, daí todo o preconceito contra quem não compratilha sua crença.

"Não há nenhuma necessidade eterna que exija que toda culpa seja paga e expiada - foi uma ilusão terrível, útil num grau mínimo, crer que tal coisa existisse -; assim como é uma ilusão que seja culpa tudo o que é sentido como tal. Não as coisas, mas as opiniões sobre as coisas que não existem, perturbaram dessa forma a humanidade!"
- Aurora, de Friedrich Nietzsche.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Dirigível de chumbo vai decolar novamente

Os remanescentes da banda Led Zeppelin vão se reunir para tocar em Londres, no dia 26 de Novembro, para uns poucos 20 mil privilegiados.
Fica a pergunta no ar: vai ter turnê mundial? É claro que vai. Vão tocar no Brasil? Sim. No Rio? Provavelmente.
Vamos aos porquês.

(na Apoteose em 27 de Janeiro de 1996)

Page e Plant já tocaram no Rio há 11 anos atrás, executando canções do Led Zeppelin com uma roupagem acústica e orquestrada. O show foi um sucesso de público. Esse show foi um dos melhores shows da minha vida, com o melhor encerramento de todos que já vi. Todo mundo saiu da Apoteose com um sorriso no rosto, e nem tocaram Stairway To Heaven. O sorriso também estava no rosto dos músicos. Muita gente pode discordar, mas foi um show do Led Zeppelin, mesmo a banda intitulando-se Unledded.



O Rio corre o risco de não ver esse show, mas São Paulo não. Os empresários de música no Brasil são muito limitados. Não entendem nada do negócio. Veja o caso do The Who que teve turnê cancelada, mesmo sendo óbvio que seria um sucesso absurdamente estrondoso.
Led Zeppelin é bem maior que The Who, principalmente no Brasil. Lógico que estou comparando infinito e infinito mais 1. Mesmo assim os cariocas correm o risco de não verem um show do Led Zeppelin no Rio por conta da incompetência de empresários do show business.
A volta do Led Zeppelin é um alerta para bandas antigas que estão ainda na ativa. Uma primeira turnê do LZ certamente vai faturar mais que as turnês do Rolling Stones. Se lançarem material novo, um álbum novo, o que é pouco provável, podem vender milhões, bater recordes e tal. Coisa que os Stones não fazem há algumas décadas.
Outra banda que está parada há anos é o AC/DC. Tremendo gigante do rock'n roll que também tocou no Brasil pela segunda e última vez em 1996 (não tocou no Rio), outro grande show da minha vida.
Recentemente ventilaram que os Sex Pistols vão voltar (mais uma vez) e fazer shows. Estes são realmente uma banda menos popular, principalmente para o público brasileiro, mas ainda assim conseguiriam tocar para uns 15 mil espectadores aqui no Rio. Talvez um pouco mais em Sampa. Dependendo do formato e do preço do ingresso.

Vai ser duro esperar para ver o Zeppelin de novo, desta vez com o John Paul Jones no baixo. É algo que eu não esperava mais ver na vida. Enquanto isso vou me mantendo vivo.
"Verdugo, verdugo. Olha lá, Acho que vejo meus amigos chegando, cavalgando por muitas milhas. O que vocês trazem, amigos, para me livrar do cadafalso?"
O puro rock´n roll!
Quem viver verá.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Irmãos Na Magia - um conto de fantasia (parte 3)

(veja aqui a parte 2)

A voz firme do irmão o arrancou de seus pensamentos. Randal estava de joelhos no chão com o livro aberto, apoiado nas mãos. Ele estava ajoelhado bem no centro do círculo que traçara no chão como proteção. Manarus percebeu que estava com um pé fora do círculo, desenhado com areia e pó de prata, e deu um passo curto para se colocar totalmente dentro.

- Acho que podemos começar. Você terá que repetir o encanto depois de mim a cada pausa. Segure o livro comigo e recitaremos juntos.

Manarus se ajoelhou ao lado do irmão e os dois iniciaram o ritual. Randal dizia que havia comprado o livro de um estranho comerciante de passagem. Manarus nunca contestara essa história, mas no fundo de sua mente uma vozinha o incomodava. Ela lhe dizia: “Quanto você acha que custaria um objeto como esse livro antigo?”, “Como Randal conseguiria dinheiro para negociar tal objeto?”. Secretamente admirava o irmão por isso também. Deslumbrado pela possibilidade de realizar um poderoso e complexo ritual de magia, Manarus simplesmente ignorou aquela voz no fundo de sua mente, recusou-se mais uma vez a julgar os atos do seu irmão de criação.

Randal prosseguia recitando as palavras do ritual com uma precisão surpreendente. Ou assim parecia a Manarus que se esforçava para repetir em voz alta cada sílaba que o irmão recitava. Os jovens feiticeiros recitaram cuidadosamente por sete vezes todo o texto dos pergaminhos que formavam o livro, mas nada aconteceu. Randal estava furioso e praguejava contra a lua no céu noturno. Mas Manarus não estava apenas decepcionado. Ele estava intrigado. Por várias vezes pode sentir emanações mágicas vindas daquelas páginas, não podia acreditar que estivesse completamente enganado sobre ele. Aqueles pergaminhos não poderiam ser uma fraude.

- É possível que tenhamos pronunciado alguma palavra erradamente, Randal.
- Não! Não é! Estudei cada uma delas, cada letra, cada respiração, cada entonação!

No seu ataque de fúria e frustração, Randal atirou o livro aberto ao chão, deu um pique de alguns metros e chutou um pequeno arbusto, gritando como um animal. Manarus não prestava atenção nele e sim no livro no chão da clareira. Algo chamou sua atenção sobre aqueles velhos pedaços de papel e tecido. Quando ele se aproximou do livro e olhou para ele, iluminado, pela luz da lua, ele viu as palavras escritas nas páginas. Palavras ocultas por uma magia tão elaborada que passaram desapercebidas por todas as divinações tentadas pelos dois irmãos. Mas agora eram claras, palavras mágicas que descreviam um novo ritual, menor, mais direto e mais poderoso. Ou seria apenas real, enquanto o outro, mais facilmente revelado, era um engodo?
- Veja, Randal. O pergaminho nos revela outro ritual sob a luz da lua.

Randal correu até o pergaminho e o tomou em suas mãos afoitas. Leu por alguns instantes aquelas recém reveladas linhas e soltou uma gargalhada. Seu riso soou insano e perverso para Manarus. Então ele começou a ler e iniciou o verdadeiro ritual para evocação do demônio.

O jovem feiticeiro parou algumas vezes para ter certeza que iria pronunciar as próximas palavras com a exatidão exigida pela arte que tentava dominar. Ao terminar de recitar, ambos ficaram parados, observando tudo a sua volta, por alguns instantes apenas, mas que para eles pareceram anos.

Foi então que sentiram um tremor no chão.

Um vento forte e quente, que parecia vir de lugar nenhum, açoitou os rostos dos dois feiticeiros. O vento aumentou de intensidade bruscamente como que em resposta ao medo crescente que eles sentiam. Tiveram que lutar para ficar de pé.

De repente o chão se abriu com um estrondo de terra se movendo. Uma luz intensa e avermelhada surgiu da fenda aberta no solo daquele local sagrado. Manarus notou que as sombras se escureciam cada vez mais. As trevas cresciam, se esticavam por todos os cantos, entre as árvores e as rochas, como garras tentando alcançar uma presa. Sentiu-se acuado. Indiferente ao que acontecia em volta dele, Randal fitava avidamente a fenda no chão com olhos arregalados e um sorriso nos lábios.

Ambos tremeram e recuaram um passo quando a mão saiu da terra. Os dois irmãos olharam em volta, certificando-se que estavam dentro do círculo mágico de proteção traçado no chão. A outra mão da criatura surgiu.

Agarrando-se à terra molhada, braços enormes cobertos por uma pele grossa como couro, avermelhada como sangue, surgiram da fenda. Os braços da criatura se esticavam num esforço para erguer o corpo soterrado. Arqueadas como garras, as mãos fincavam as unham compridas na lama, puxando o corpo para a superfície.

A cabeça monstruosa da criatura podia ser vista agora. Com o rosto voltado para baixo, arrastando-se na lama, quatro chifres escuros e pontiagudos brotavam do topo. Ela ergueu o rosto da lama, olhando na direção dos magos. A princípio não se podia ver seus olhos cobertos de lama, mas logo a lama escorreu revelando o olhar maligno do demônio. Seus olhos totalmente negros brilhavam, refletindo a pálida luz da lua.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Conto

Um post rápido para divulgar um conto de um colega do Bar Do Escritor, LITURGIA.
Achei que merecia.
Um dia eu chego lá.

domingo, 2 de setembro de 2007

Miséria, miséria em qualquer canto

Finalmente assisti o filme Caixa Dois. Sobre o filme não tenho muito a comentar, boas atuações, um enredo simpático e roteiro engraçadinho. O ponto mais marcante de tudo foi que o filme me comoveu. Comoveu pela inocência dos personagens, mocinhos e vilões. O mundo financeiro é muito mais diabólico do que mostrou o filme.
Porém a comoção não ficou só na inocência, foi um misto de auto-piedade e revolta. Auto-piedade por eu ser pobre, em alguns sentidos. Revolta pela péssima distribuição de renda do país, mesmo que eu já tenha arquivado todos esses sentimentos socialistas há muitos anos. E olha que no filme só aparece a classe média...
Pois é exatamente assim que eu (e outros. Veja um Ensaio sobre a pobreza) me sinto: um miserável de classe média.

Meu plano A era me aposentar na área de tecnologia com uma aposentadoria complementar privada, bancada em parte por uma empresa, de preferência multi-nacional. Desisti disso. É muito difícil permanecer numa mesma empresa mais do que 5 anos (eu nunca consegui ficar nem 5 anos!), por melhor que seja a empresa. O mercado exige que você se mova, seja para ganhar mais e subir de cargo ou trocar de atividade simplesmente pelo desafio de vencer o tédio.

O plano A está em "hold" e estou me dedicando ao plano B que não posso revelar no momento (existe um link abaixo do post para comentários se quiserem reclamar). O plano C também já foi preparado, pode ser ativado a qualquer momento. É o plano Saída Galeão. Começou com a minha cidadania portuguesa. Como muitos dizem, Portugal é ali pertinho da Europa, assim como Miami é ali pertinho dos Estados Unidos. Esse plano C é isso. Morar e trabalhar na Europa.

Por que não é esse o plano A? Por causa de uma simples e hedionda palavra: trabalhar.
Riquezas são diferentes.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Blues para uma manhã fria

O Sol Lá Fora
(Yuri Kauss)

O sol lá fora
Espanta o frio
Você me deixou
Fiquei sozinho

Já está na hora
De parar de chorar
Você foi embora
Não vai mais voltar

Eu sei, preciso me conformar
Você foi pra longe de mim
É, mas eu vou te dar o troco
Vou te pegar antes do fim

E o sol lá fora
Espanta o frio
Sozinho agora
No nosso ninho

Tão vazio, tão vazio
O nosso cantinho
Acendo um cigarro amarrotado
Espalho fumaça pra todo lado

Fico me repetindo
A sua foto sorrindo
Deito na cama
Balanço na corda-bamba

Não consigo mais respirar
Abro a janela pro sol entrar

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Cabaret incendeia o Teatro Odisséia

Ontem foi a noite do Rock Baile do DJ Edinho no Tetaro Odisséia com a apresentação da banda Cabaret.
Tudo começou quando entramos cedo num Odisséia ainda vazio. Edinho soltou vários rocks e pop-rocks de diferentes eras da música. Me fez lembrar o saudoso DJ Zezinho (o original) do Mariuzinn. Edinho provou que preserva seu bom gosto até hoje, desde os tempos da Dr. Smith. Edinho não se rende ao óbvio. Todas as noites que tocam rocks são sempre a mesma coisa. Edinho não. Consegue surpreender mesmo tocando clássicos como Queen e Cream, nunca é aquela música batida que você ouve por aí. Satisfaction dos Rolling Stones? Não. O que rolou foi Gimme Shelter. E por aí vai.
Jantamos ali mesmo. A cozinha é boa e não é cara. Talvez seja a mesma da vizinha Choperia Brazooka.


Por volta de 1:00 da manhã a banda Cabaret subiu no palco. Abrindo o show com uma de suas ótimas baladas (para quem não sabe, balada é uma música lenta que conta uma história).

O vocalista Marvel (Márvio) não se intimidou com o reduzido público e saldou a platéia com "Vocês são ótimos. Pena que são tão poucos..."


Atendendo a pedidos, Marvel fez um strip-tease parcial e simulou sexo com o chão do Teatro Odisséia.

Mais tarde depois do show, troquei umas palavras com o guitarrista Peter Glitter (Pedro) e comentei sobre o público reduzido. Cabaret faz um rock para pessoas com um nível de exigência alto. Esse tipo de rock´n roll não atinge mais o público jovem na proporção das décadas de 90 e 80. Todo mundo ouve qualquer coisa hoje em dia e assim bandas ruins, com muito jabá, tocam insistentemente até atingirem um nível de vendas que compense o investimento da gravadora. Peter Glitter falava que há duas semanas a banda Rockz havia colocado um público maior nessa mesma festa. Me desculpem os fãs, mas Rockz é uma banda bem bobinha e fraca. Além da alegria e bom-humor, têm o mérito de não serem pretensiosos como outras bandas ruins que fazem sucesso por aí. A presença do Jota Quest tocando ao lado no Circo Voador pode ter contribuído para o esvaziamento do Odisséia. Além de tudo isso, apesar da fama, os cariocas trabalham na sexta-feira.

Voltando à apresentação do Cabaret: fizeram o melhor show que eu assisti deles até agora. Marvel tocou guitarra em mais músicas do que o costume e o som da banda ganhou uma outra dimensão ao vivo, soando mais próximo do CD.

Tocaram 3 ou 4 músicas novas, entre elas "Heterossexual" um rock que mantém o nível da banda nas composições, falando de alguém que parecia tão heterossexual, mas se revelou outra pessoa. Um tema que desafia a geração atual, com o toque de canalhice bem humorada característico da banda.

Muita interação com a platéia, confirmou o tom de festa do evento, sem descambar para a farofada.

Na foto acima, onde está Wally?


Marvel no meio do público que formou um corredor para sua "evolução".

Um final matador com "Deixa o Cadáver no Palco" e "Copacabana Full-time" deixou a platéia feliz.

Continua havendo algo de podre no reino da música brasileira. Antigamente, uma banda como essa já teria aberto as portas da mídia há muito tempo.

Mas ainda dá tempo. Se você ouvir uma banda com boas letras em português, tocando com energia, sentimento e técnica, e tiver vontade de deixar sua vida para trás, levando apenas algumas roupas e seu mp3 player, não se assuste. Aumente o volume para escutar melhor. É Cabaret.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Elvis is dead

É. Elvis Presley já morreu. Isso faz 30 anos agora. Talvez o título de "rei do rock" seja demais para esse cantor que só fez rock por poucos anos (de 1954 a 1958) e depois se vendeu ao sistema. Teve o grande mérito de popularizar o rock'n roll nas camadas brancas da sociedade americana, criar o que chamamos hoje de "presença de palco" e influenciar muitos músicos importantes da geração seguinte a ele, como os Beatles por exemplo. Mas "rei do rock"...!?




Eu assisti um show no Estádio de Remo da Lagoa onde os coroas Chuck Berry e Little Richard mostraram quem é a realeza do rock. Rei e Rainha, respectivamente.


Elvis enterrou de vez o rock ao se mudar para Las Vegas. O rock já não estava presente há muito tempo. A partir daí vendeu muitos discos de canções românticas e bregas. Apesar de ter vendido "bilhões" de discos, foram poucos álbuns e sim muitos compactos.

Deixo vocês com a letra do Living Colour:
Elvis is Dead

Tabloids scream
Elvis seen at a shopping mall
That’s the kind of talk
That makes my stomach crawl
Picture a zombie elvisIn a tacky white jump suit
Just imagine a rotting elvis
Shopping for fresh fruit
You can’t ’cause

Chorus:
Elvis is dead [x8]

When the king died
He was all alone
I heard that when he died
He was sitting on his throne
Alas poor elvis
They made us know you well
Now you dwell forever
In the heartbreak hotel

(Chorus)

Elvis was a hero to most
But that’s beside the point
A black man taught him how to sing
And then he was crowned king
The pelvis of elvis
Too dangerous for the masses
They cleaned him up and sent him to vegas
Now the masses are his slave
Slave? slaveYes, even from the grave
Elvis is dead [sampled voices]
I’ve got a reason to believe
We all won’t be received at graceland
I’ve got a reason to believe
We all won’t be received at graceland
I’ve got a reason to believe
We all won’t be received at graceland
I’ve got a reason to believe
We all won’t be received at graceland

(Chorus )

sábado, 11 de agosto de 2007

4Cabeça no Estrela da Lapa

O grupo formado pelos cantores e compositores Baia, Gabriel Moura, Rogê e Luis Carlinhos, o 4Cabeça, vai se apresentar todas as quartas-feiras de Agosto no Estrela da Lapa.
Esses músicos fazem, individulamente, uma música popular brasileira de altíssima qualidade. Quando tocam juntos, nesse projeto 4Cabeça, há uma grande sintonia entre os quatro. Já tive oportunidade de ver uma ou duas vezes o quarteto em ação. As canções combinadas fazem um grande show.
De quebra, ainda terá DJ Cyro nas carrapetas para dançar antes e depois do show.
Programão para o meio da semana.

4Cabeça - Estrela da Lapa
Av. Mem de Sá 69 - Lapa - Rio de Janeiro
Quarta-feira 22h - R$40
aceita reservas 2509-7602

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Já cansei do Cansei

O patético movimento político CANSEI foi totalmente avacalhado pelo blog vizinho Tô Cansadinho

Nada a acrescentar. Leiam e riam

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O proibidão do Toni Platão

A música "Sofre" de Tim Maia ficou fora do álbum Negro Amor de Toni Platão por problemas de liberação de direitos, mas ele segue cantando no show.
A versão de Tim Maia é mais blues, a do Toni mais dançante.

Veja aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=mSy6uVResBA

Uma dos Mutantes com a Zélia Duncan (eu estava na platéia nesse dia):
http://www.youtube.com/watch?v=kpjd6Nekcfs

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Cabaret ao vivo nesse sábado

A melhor banda de rock do momento, Cabaret, toca, junto com Lasciva Lula, na festa (evento, encontro, sei lá) SEX_ARTE no hotel Paris no Centro.
A festa conta ainda com o DJ Tulio, Mercado da Luz Vermelha (não sei o que é, mas devem ser mulheres nuas dançando em vitrines), Clipes Pornô Trash e Striptease.

Cabaret e Lasciva Lula - SEX_ARTE
Sábado 4 de Agosto
Hotel Paris
Av. Passos 7, 2o. Andar - Centro
R$15 até meia noite, depois R$20 ou R$18 com flyer

Saldo dos jogos

Perdemos para Estados Unidos (time B) e Cuba. Vencemos de Canadá (time B).
Patético.
Como sempre os atletas brasileiros, vencendo ou não, são verdadeiros heróis, abnegados e patriotas.
Patriotas sim, pois para cantar o hino do país que não investe nada no esporte, leia-se no atleta, que simplesmente não consegue viver do esporte, é preciso gostar muito dessa terra. Enquanto Cuba, uma ilha miserável, com uma população que não chega a 10% da nossa, vem aqui e dá banho no Brasil.
Alguns podem lembrar que esse foi o melhor resultado do Brasil na história dos Jogos Panamericanos. Pode ser. Ainda assim é irrisório.
Pequim vai ser uma grande festa... para os outros. Nós vamos nos ferrar, para variar.

sábado, 28 de julho de 2007

Toni Platão de novo

Finalmente levei o Bruno para assisitir o show do Toni Platão quinta-feira no Estrela da Lapa.
É sempre bom ouvir esse show. Digo "sempre" porque deve ser a oitava vez que assisto. Vi esse show nascer, crescer e amadurecer. O Toni já era um dos meus cantores preferidos desde a década de 80 com sua extinta banda Hojerizah. Foi uma grande apresentação do cantor e da banda (para variar), mas a temporada no Estrela acabou. Toni Platão e banda vão voltar em breve para a Letras & Expressões onde devem ficar até o fim do ano, segundo o próprio Toni. O cara bateu um papo com a gente no final do show, como sempre simpático e carismático. O show do Negro Amor é uma experiência mais completa do que o disco, que também é excelente.

É isso aí. Bruno volta para Manaus, Toni volta para a Letras e eu volto para faculdade na semana que vem. Também rola um ensaio noturno da Abutres rock´n roll band na terça, onde sigo tentando não desafinar em Paranoid do Black Sabbath. The show must go on.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Urro

Achei esse poema escrito junto com antigas anotações de partidas de roleplaying game. Não tenho certeza se fui eu que escrevi. De qualquer forma aí vai (talvez o verdadeiro autor apareça para reclamar):

Gritar do salão do inferno
Para retirar teu véu
E banhada pela noite ouves do céu
Tão desgraçado e vil
Mais estranho e servil
Do que a escravidão
Ecoa o meu urro de dor
Dói na alma meu amor
Por ti

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Eu velejei, o Pan adiou

Ontem saí para velejar com meu único amigo que ainda tem um veleiro. Já que o falecido Speedy Gonzales jaz no fundo da Baía de Guanabara. Saímos com o Koala por volta de 12:45 e fomos até Camboínhas. Dia agradável de sol e ventos moderados, em torno de 9 nós.
Perguntar não ofende: não tinha vento para a regata do Pan? Para a gente teve vento suficiente para velejar a tarde toda num Rio 20, um barco nem de longe tão eficiente como as classes panamericanas de vela.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Punk-rock para acampamentos

Wander Wildner e Sergio Serra subiram no palquinho do Cinemathèque empunhando violões e sentimentos na apresentação de terça-feira do seu show acústico Sub Versões.
Versões em português para clássicos do punk e do pós-punk como Eu Acredito em Milagres (Ramones), Lonely Boy (Sex Pistols), Passageiro (Iggy Pop). Esta última uma versão em português menos fiel à original e mais poética do que a do Capital Inicial. O convidado da noite, Flu, relembrou sucessos da banda gaúcha De Falla, "Não Me Mande Flores" e "Fucking Boring to Death" (não sei se são esses os nomes dessas canções, mas é assim que me lembro delas). Sergio se encarregava dos solos de violão e Wander da base e da voz, com algumas participações de Sergio, que também cantou uma ou outra, além de arrebentar duas cordas do violão, uma em cada música. Um show informal com várias referências ao passado de Wander. Como ele mesmo disse, uma releitura para se tocar em acampamentos. Não faltaram alguns clássicos como "Bebendo Vinho" e versões acústicas para sucessos dos Replicantes como"Surfista Calhorda" e "Sandina", além de "Candy" do Iggy Pop.
Na saída eu o Bruno paramos para falar com o Wander que tomava sua indefectível taça de vinho. Bruno lembrou de um show em Fernando de Noronha, o que deixou o Wander feliz. Tentamos tirar uma foto para o blog com meu celular, mas não deu certo. Vai ficar para a semana que vem, quando levarei minha câmera.
Jamari França estava lá, talvez pinte algum post sobre o show no blog dele.
No final foi um show agradável, com a duração certa. Mostrou que, além do excelente óbvio, existe muita coisa boa negligenciada dos anos 80.
Até punk labo B pode ser melódico. Todo mundo vai embora, todo mundo tem sua hora, mas a de Wander ainda não chegou. Com violão ou até em volta da fogueira, o movimento punk nunca há de morrer!

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Dado, você pode cantar.

"Você pode cantar, Dado." Esse foi o conselho da cantora Cecília Spyer para o guitarrista vencer sua timidez e soltar a voz na nova fase da sua carreira. Dado Villa-Lobos, guitarrista da insuperável Legião Urbana, lotou o Bar do Zira no terceiro andar da Livraria Letras & Expressões de Ipanema, que ficou bem pequeno para o público presente e para a grandeza do show.
Confesso que demorei um pouco para notar esse trabalho do Dado, pois não levo muita fé nas coisas produzidas pela MTV. A emissora tem um perfil muito adolescente e erra mais do que acerta nas produções. Quando fui ver, o cara já estava fazendo show por aí. Peguei uma participação dele no show dos Paralamas no Circo Voador no final de 2005, quando o disco do Dado já estava pronto, mas não tinha deslanchado. Baixei o disco no site dele e gostei. Nesse show de ontem, começou com uma voz tímida cantando suas canções e foi se soltando aos poucos, para terminar como se estivesse tocando na sua própria garagem (no bom sentido). Dado sempre foi um guitarrista criativo. Econômico porém eloquente em suas composições com a guitarra. Empunha sua telecaster com segurança, mas agora divide os riffs com os vocais, o que dá espaço para o outro guitarrista da banda, que tocou violão e gaita ao mesmo tempo a la Bob Dylan.
Eu estava ali no gargarejo, com os pés no palco, praticamente atrapalhando a banda. Muitas participações realmente especiais. Começando pela cantora Cecília Spyer, que entrou num momento ainda morno do show. Foi bem tecnicamente mas não empolgou. Rodrigo Santos, cantando "Geração Coca-Cola" versão lenta, esquentou e o show embalou com Dado bem humorado e à vontade. Veio Toni Platão trazendo uma bandeirinha do Fluminense, segundo o Dado para comemorar a Copa do Brasil. O Toni dispensa comentários. Cantou "Tudo Que Vai" e uma da Legião (acho que foi "Há Tempos").
Fausto Fawcett cantou "Beleza Americana", a música é mais uma parceria dele com o Dado. É aquela que tem a parte "Disney" da letra que fala dos sobrinhos do Patológico: euzinho, egozinho e myselfzinho. Depois Toni Platão juntou-se novamente a eles no palco, formando o trio tricolor, para cantar "Calígula Free-Jack".
Paula Toller chegou mais tarde vindo direto de São Paulo. Como disse o Dado: relaxou e gozou... e conseguiu chegar, para cantar "Pane de Maravilha", uma canção do disco novo dela, também uma parceria com o Dado e o Fausto Fawcett.
No bis, resolveram cantar mais uma, mas ficaram na dúvida do quê cantar. Entre "Índios" e "Conexão Amazônica", quase convenço a banda a tocar "Conexão", mas Dado achou muito pesada para o horário pois poderia acordar a velhinha que mora no prédio ao lado. Alguém sugeriu chamar a velhinha para o show, mas acabou rolando "Índios" na versão original (elétrica). Interessante foi a cola da letra que o Dado usou, apenas com trechos dos versos da música.
Bom show. Dado dá um tratamento adequado ao legado da Legião. Poderia ter tocado as músicas numa outra ordem, mesclando mais as novas com as velhas para deixar o show com um pique mais homogêneo. Eu deveria ter assistido mais vezes, mas só vi esta última apresentação. Estava planejando ir quando fui convidado por amigos. Definitivamente não foi tempo perdido. Na próxima temporada do Dado Villa-Lobos estarei lá.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Irmãos Na Magia - um conto de fantasia (parte 2)

(veja aqui a parte 1)

Era isso que iriam fazer naquela noite. Um pacto com uma criatura sombria que vivia em planos inferiores, nas profundezas da existência. Manarus não sabia o que o demônio pediria a eles, apenas mantinha a esperança que fosse algo simples como a vida de um animal. Levavam um porco pequeno para o local do ritual.
Parou com suas divagações, recolheu sua sacola previamente preparada para aquele dia e juntou-se a seu irmão, na porta da cabana.

- Vamos. Temos que nos apressar. O caminho estará pesado por causa da chuva.

Os dois partiram a pé pela trilha que levava até uma pequena clareira. Randal carregava o porco embaixo do braço. O animalzinho estava dopado com uma fusão de ervas calmantes que o próprio Randal havia preparado. Outro ensinamento de seu pai, o druida. O animal parecia dormir enquanto os irmãos seguiam pelo caminho.

Logo chegaram na clareira, que era delimitada por oito pedras altas, como pilares retangulares, dispostas em um círculo amplo. Essas pedras, colocadas neste local há muitas eras, seriam suas únicas testemunhas. Dentro da proteção mística do círculo formado pelas pedras, Manarus sentiu-se mais confiante. Olhou para cima e pôde avistar o céu através de uma abertura nas nuvens. A chuva cessou. Randal e Manarus começaram a preparar o ritual.

Primeiro Manarus limpou uma área grande com cerca de três passos largos de diâmetro, usando uma pequena enxada que tirou da sua sacola. Em seguida Randal marcou um círculo grande no chão com pó de prata e areia branca.

– Ficaremos dentro do círculo para que o demônio não possa nos tocar.

As palavras de Randal causaram medo em Manarus. Instintivamente ele tocou a peça de ferro em seu bolso esquerdo.

Há quatro meses ele havia ido até a vila, como seu pai ordenara, para comprar trigo e vender algumas ervas. O velho Bernic era de pouca conversa e não gostava de trocar palavras com os aldeões. Chegara a passar dois anos sem pisar na vila e preferia mandar um de seus filhos sempre que precisava de alguma coisa de lá. Desta vez Manarus havia se atrasado na volta, pois parara para olhar uma bela e jovem aldeã que cavalgava um corcel jovem, recém domado. Manarus ficou ali por algum tempo, apoiado na cerca de madeira que delimitava a propriedade. Era um pequeno haras que pertencia a uma família local. Dentro do cercado, a jovem montava o cavalo com desenvoltura, testando o animal para saber se ele aprendera a obedecer seus comandos com rapidez e precisão. Quando percebeu que escurecia, Manarus assustou-se e partiu apressado pela estrada que levava até um ponto próximo de sua casa, de onde seguiria por uma trilha discreta.

Anoiteceu rápido e Manarus ainda estava longe de casa. Depois de caminhar cerca de uma hora sobre a fraca luz da lua minguante, ele percebeu um barulho na estrada. Um cavalo se aproximava dele, com um trote lento e irregular. Uma pessoa vinha no lombo do animal, caída para frente como que desmaiada. Permaneceu parado enquanto o cavalo se aproximava dele lentamente. Tartava-se de um sacerdote, Manarus logo percebeu. Suas vestes escuras foram logo identificadas pelo rapaz. Já havia visto outros destes clérigos antes. O Templo de Iovel era o novo culto que se alastrava rapidamente pelos reinos da costa de Löria. Manaruas ficou intrigado. Esperou o cavalo se aproximar mais até que o animal parou diante dele. Viu que o homem estava realmente desacordado. Tentou reanimá-lo sem sucesso e depois o ergueu para deixá-lo sentado na sela. Foi quando percebeu que havia uma enorme mancha de sangue nas vestes do homem. Com cuidado, retirou o homem de cima do cavalo e o deitou no chão.
Não sabia bem o que fazer, então rasgou a roupa do sacerdote para olhar o ferimento. Manarus fez um careta de asco quando viu que havia efeito de veneno no ferimento causado por uma lâmina curta, um punhal talvez. Pensou em carregar o homem até sua casa para pedir ajuda ao pai, mas logo percebeu que não agüentaria. O sacerdote era alto e forte, devia pesar demais para o raquítico rapaz carregá-lo. Ficou por um momento conjecturando sobre o que fazer, ajoelhado ao lado daquele corpo inerte.
Sem aviso o sacerdote despertou. Agarrou a mão de Manarus e falou com um tom de urgência.

- Esta cruz protejerá o povo de Iovel do mal. Pertenceu ao próprio Kraanan. Não deixe que eles a peguem, não deixe que destruam...

Manarus ficou fitando o rosto do homem, sem dar muita importância para o que ele dizia, até que o sacerdote deitou a cabeça novamente no chão, fechando os olhos. Estava morto.

Manarus compreendia que haviam assassinado o clérigo. E que o clérigo rumava para a aldeia. Além disso, sabia que essa seita de Iovel acusava as antigas tradições druidicas de serem blasfemas e heréticas, pois somente seu deus Iovel era um deus “verdadeiro”. Um culto expansionista e intolerante, era o que Manarus havia aprendido sobre eles. Agora tinha um cadáver no meio da estrada e sangue em suas mãos. Além da pequena cruz de ferro fundido, totalmente polido, que parecia algo importante na visão do morto.

Ficou ali aturdido por um longo tempo. Depois levantou-se e verificou o cavalo. O animal não tinha marcas, não poderia ser identificado como propriedade do Templo de Iovel ou de qualquer pessoa. Uma idéia surgiu furtiva na sua cabeça. Poderia enterrar o corpo e voltar para casa com o cavalo. Ninguém o ligaria à morte do sacerdote e talvez nem encontrassem mais o corpo. Haviam assassinado o homem. Sim, mas seu medo era que o acusassem do crime. O filho de um druida, poderia matar um sacerdote do Templo de Iovel por alguns motivos óbvios. Intolerância era um deles. O Templo não precisaria de muitos motivos para acusá-lo e levá-lo à forca, ele, seu irmão e seu pai. Toda sua família poderia ser condenada se fossem ligados àquele crime.

- Vou sepultá-lo na floresta. O cavalo não tem marcas, não poderá ser reclamado depois. É melhor que esse clérigo simplesmente desapareça do que ser encontrado morto por envenenamento – ponderou Manarus num sussuro.

Carregou o corpo para dentro da floresta cerca de dez minutos. Ocultou o corpo da melhor maneira que conseguiu, soterrando-o com folhas e terra úmida. Depois voltaria para enterrá-lo definitivamente. Quando tocou a cruz, depois de esconder o cadáver, o tempo pareceu congelar repentinamente. Tudo ao seu redor perdeu a nitidez. Ficou tonto. O jovem lutou por um momento para recuperar a lucidez, mas sua vista escureceu e ele caiu no chão. Acordou algum tempo depois com respingos de chuva batendo em seu rosto, sem saber quanto tempo havia ficado desacordado. A chuva era uma aliada naquele momento, apagaria os rastros. A tal cruz ainda estava na sua mão e Manarus colocou-a rapidamente no bolso, com medo que causasse algum outro efeito nele. Alguns dias depois Manarus tentaria entender que radiações arcanas emanavam daquele objeto.

Montou no cavalo e galopou até sua casa pensando numa maneira de explicar como conseguira aquele belo animal.

Dado Villa-Lobos na Letras & Expressões

Um dos guitarristas mais importantes da história do rock brasileiro, exatamente por ter sido o guitarrista da banda mais importante de todos os tempos no Brasil, Dado Villa-Lobos se apresenta novamente na Livraria Letras & Expressões de Ipanema nessa quinta-feira, dia 05/07.
Dado apresenta seu novo trabalho "Jardim de Cactus" com participação dos seus amigos e parceiros Toni Platão e Fausto Fawcett. Ainda toca umas da Legião e outras dos artistas que o influenciaram como Lou Reed, Jesus and Mary Chain, etc.
O local fica no terceiro andar da livraria, num piano-bar pequeno e aconchegante.
O ingresso custa R$15. Essa apresentação encerra a temporada na casa.

Dado Villa-Lobos - Jardim de Cactus
Livraria Letras e Expressões de Ipanema às 21:30
Rua Visconde de Pirajá, 276

terça-feira, 3 de julho de 2007

Wander Wildner hoje no Cinemathèque

O punk-rocker-brega Wander Wildner começa hoje uma temporada de shows acústicos no Cinemathèque sempre às terça-feiras. Acompanhado do guitarrista Sergio Serra (ex-Ultraje a Rigor). O repertório passeia pelos clássicos do rock e do punk-rock em versões acústicas.

Recomendo, pois além de executar suas boas canções, Wildner é sempre divertido ao vivo.
Vão contar hoje com a participação especial do baixista Arnaldo Brandão (ex-Hanoi Hanoi).

Para os pés-de-cana, rola também uma degustação de cachaças no local.

Wander Wildner e Sergio Serra - Sub Versões
Cinemathèque Jam Club, nesta terça às 22h.
Rua Voluntários da Pátria nº53.

DVD do Celso Blues Boy

Caiu na minha mão, com a ajuda de um companheiro da comunidade do Celso Blues Boy no Orkut, um especial da TV Manchete de 1990 com o Celso, Blues Etílicos, André Christóvam e Tônia Schubert.
O Celso é a estrela principal do programa com mais músicas e baseia seu repertório no seu álbum de 1989 "Quando a Noite Cai", um dos seus trabalhos menos marcantes, diga-se de passagem. O DVD vale pela aparição da banda Blues Etílicos, em começo de carreira, com seu segundo álbum "Água Mineral" também de 1989. É um grande momento do blues do Brasil, mas o visual do Celso Blues Boy, com seus impagáveis "mullets", é de deixar qualquer dupla sertaneja morrendo de inveja.
André Christóvam toca músicas do seu primeiro álbum, o único com composições em portugês. A cantora Tônia canta um blues que eu não me lembro (também não me lembro dela).
O especial da TV Manchete levava o nome de "Projeto Blues" com supervisão artística de Jayme Monjardim. Apesar da fonte ser VHS a imagem está razoável e o som está muito bom.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Mutantes acham sua casa

Foi uma celebração digna dos anos 60. Antes do show rolava um rock´n roll clássico anos 70 e 60 para dar o clima, e deu. Estou falando do show dos Mutantes no Circo Voador na sexta-feira.
A apresentação da banda foi primorosa, em sintonia total com o público.
O repertório foi o mesmo da apresentação no Vivo Rio em Fevereiro deste ano, mas a banda apresenta uma clara evolução. Principalmente Arnaldo Baptista. Parece que a volta aos palcos está aos poucos trazendo o grande tecladista de volta à velha forma. Suas participações foram bem mais audíveis desta vez. Zélia continua bem. Apesar de ter feito o show com a saúde debilitada, a vocalista segurou bem e até arriscou cantar num tom mais alto. Arnaldo cantou "Dia 36", canção lado B dos Mutantes que Toni Platão gravou em seu recente albúm "Negro Amor". Sergio Dias esbanja simpatia e lidera a banda cantando e tocando uma guitarra poderosa. Dinho mostra que ainda é um grande baterista. Os outros músicos da banda mantêm o nível, com destaques para a percussionista Simone Soul e os backing vocals de Fábio e Esméria. Só uma coisinha está faltando no show dos Mutantes: "Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o meu rock´n roll". Enfim a primeira e maior banda de rock do Brasil encontrou sua casa. Espero que toquem mais vezes no Circo. Os cariocas agradecem.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Harakiri - um conto suicida

Ficou tão fascinado pela beleza das armas que baixou a cabeça para olhar mais de perto, esquecendo-se do vidro. Deu com a testa na vitrine, fazendo barulho. Olhou em volta constrangido para certificar-se de que ninguém tinha visto.

Sacou seu cartão de crédito Itaú Mastercard, pago em dia e à vista durante vinte e seis anos, e comprou as armas. Faziam um lindo par. Seu cartão estava quase estourado. Havia se hospedado no Copacabana Palace para passar seus últimos dias. Vinha comendo do bom e do melhor no restaurante do hotel. Jantou lagosta. Não precisava se preocupar em pagar a conta do cartão. Estaria morto no dia seguinte. Matar-se usando uma espada seria doloroso, pensou. Mas estava decidido.

Era a única maneira digna de cometer suicídio. Enfiar a katana pequena, de nome estranho. Como era mesmo o nome? Wakizashi ou algo assim. Enfiar a tal wakizashi na barriga e torcê-la em seguida. Isso vai doer muito. Mas para ele não importava. Abominava a idéia de uma morte suave, rápida ou indolor. Era a morte de um covarde. Ele sim, morreria como um homem. Talvez gritasse alguma coisa tipo “banzai!” para desferir o golpe fatal. Ou seria “bonsai”? Não. Bonsai eram aquelas arvorezinhas em miniatura. Não tinha nada a ver. Nem “banzai” tinha a ver. Era o grito dos pilotos kamikazes quando atiravam seus aviões contra os navios americanos na Segunda Guerra. Japonês tem lá as suas viadagens, pensou. Mas harakiri é coisa de macho!

Voltou para sua suíte no hotel e deixou o pacote com as espadas sobre a cama. Havia trazido seus CDs preferidos para ouvir em seus últimos dias. Procurou na letra “O”, Ozzy Osbourne, álbum Blizzard of Ozz, faixa Suicide Solution. Achou apropriado. Colocou para tocar no aparelho de som do quarto. Em volume moderado para não ser interrompido por alguma chamada telefônica, reclamando do som alto.

O tom estridente da voz de Ozzy soou irritante, talvez pela primeira vez em sua vida. Desligou.

Lembrou-se que precisava afiar as espadas. Pegou a katana, a pedra de amolar, sentou na enorme cama de casal king size e começou a esfregar o fio da lâmina. Lembrou que não usaria a katana. Ela era só para compor o conjunto, para dar dramaticidade. A wakizashi é que precisava ser amolada. Começou a afiar a arma. Parou. Sempre foi um tanto preguiçoso para trabalhos braçais. Aliás, sempre fora um preguiçoso para tudo na vida. Mas não dessa vez. Morreira com dignidade, com “honra de samurai”.

Resolveu que seria bom escutar um disco. Levantou da cama e passou os dedos pelos CDs. Havia trazido apenas os seus favoritos. Seus 342 CDs favoritos de uma coleção de 1034 CDs originais e 4 piratas. Pegou o Led Zeppelin IV, mas largou. Pensou em algo mais animado. Pegou o Electric e botou para tocar. Aumentou um pouco o volume desta vez. Quando o CD chegou na faixa Born To Be Wild levantou-se de novo para pular a faixa. Não gostava daquela versão. A original sim, era boa. Ocorreu-lhe abrir a gaveta do móvel onde estava o aparelho de som e achou o controle remoto.

Voltou para sua tarefa monótona de afiar a espadinha japonesa. Desligou-se. Seus pensamentos viajavam, lembrando diversos momentos da sua vida. Lembrou dela, e também de algumas outras mulheres que teve. Gostava muito de mulher, mas chegara num ponto que nada mais lhe dava prazer. Por isso decidiu finalizar. Depois de quase uma hora afiando a wakizashi achou que já estava bom. Passou o dedo para testar o fio da lâmina. Fez um pequeno corte no indicador.

Levantou e arrumou suas coisas. Deixou as roupas todas dentro da mala. Guardou os CDs. Pegou seus documentos e colocou sobre a mesinha de cabeceira. Carteira do CREA, do IFP, de Motorista, Cartão de Crédito. Procurou o documento do carro, mas lembrou-se que não tinha mais. Havia vendido o carro e depositado o dinheiro junto com todas as suas outras economias na conta dela, o grande amor da sua vida.
Olhou novamente para a espadinha, erguendo-a até a altura dos olhos. Deixou-a em cima da cama. Tinha uma expressão serena, com um quase sorriso nos lábios. Caminhou até a janela e a abriu totalmente. Respirou fundo, sentindo a maresia.Voltou até a cama e pegou a wakizashi de novo. Seu último pensamento racional foi “vai doer demais”. De sopetão, deu um pulo e correu para a janela, ainda com a arma na mão. Saltou de cabeça para a brisa do mar de Copacabana. Era o sexto andar.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Irmãos Na Magia - um conto de fantasia (parte1)

A chuva caía torrencialmente, criando córregos de água enlameada que iam, aos poucos, erodindo e destruindo o caminho que levava até a cabana do velho druida.
O caminho cuidadosamente decorado com plantas e flores de muitas cores e perfumes agora mais parecia a velha trilha de cabras pisoteada que o era há quatro anos atrás. Dentro da cabana os dois rapazes olhavam através da porta aberta para a floresta encharcada, esperando ver o velho, a quem chamavam de pai, surgir a qualquer momento voltando para casa.

– Não temas. Ele não vai voltar até a noite.
– Eu sei, mas tenho medo que ele nos descubra. Tu não tens?
– Quando descobrir, se descobrir, já será então tarde para que interfira. Não poderá mais impedir-me.

Randal, o mais determinado dos dois, tinha os cabelos compridos e escuros, caídos ligeiramente para frente cobrindo parte do seu rosto e dando-lhe uma aparência misteriosa. Manarus, o outro, achou sua expressão mais sombria do que de costume desta vez. Sempre havia um tom de imensa satisfação quando mencionava o que eles estavam para fazer, mas não era a expressão de Randal o quê mais vinha incomodando Manarus nos últimos dias. Havia algo novo nele, algo intangível como um segredo que só ele soubesse, algo que o tornava mais confiante. Era perceptível em seu tom de voz, às vezes. Noutras vezes era um olhar ou um sorriso meio frio. Além disso, Randal também havia mudado seu discurso. Agora era sempre sobre “ele” conseguir e não mais “nós”. Manarus preocupava-se com esse detalhe e sua preocupação era evidente, mas Randal acreditava que ele apenas tinha receio de ser descoberto pelo pai.

– Sabes que podemos ser punidos pela Deusa, não sabes? – provocou Manarus, fingindo mais preocupação do que realmente tinha.
– Que importa!? Terei um Deus mais poderoso ao meu lado e estarei comungando com um dos seus mais poderosos arautos.
– Estarás tu? E quanto a mim? – disse Manarus, com uma irritação evidente.
– Nós estaremos, meu irmão. Seremos os necromantes mais temidos do reino. Venha, está na hora. O sol já vai tocar o horizonte. Precisamos estar preparados para evocá-lo assim que o sol sumir no horizonte. Quando a lua cheia estiver em seu zênite, ele virá até nós.

A idéia de evocar a entidade chamada Zemian era tão excitante para Manarus que este esqueceu suas preocupações quanto às verdadeiras intenções de seu irmão de criação. Sua excitação era tanta que seu estado era de quase torpor. Sonhava acordado com os poderes que o demônio poderia lhe conceder. Parou então de pensar em Randal e tentou concentrar-se nas estrelas e na lua que galgava o céu noturno. Haviam praticado a arte da astronomia durantes meses até que, finalmente, podiam determinar a posição exata, outrora impossível para eles.

A chuva diminuía. Manarus sabia que em alguns minutos ela cessaria completamente. Graças aos ensinamentos do pai, ele tinha total conhecimento para predizer o comportamento do tempo e do clima.

– Quando cessará a chuva, Manarus?
– Logo – respondeu sem dar importância.

Lembrou-se brevemente dos momentos de alegria e fascínio de sua infância, ao lado do velho druida. Ele os havia adotado e criado como seus filhos, Manarus e Randal. A ambos havia dado o seu nome, Flag. Manarus imaginou o pai, com sua longa barba branca, descobrindo sobre as experiências com magia dos dois. Magia negra, realizada com poder drenado da noite. Nunca teria chegado a este ponto não fosse a determinação do irmão. Determinação talvez não fosse a palavra exata para expressar o comportamento de Randal, desde que começaram a traduzir o livro. A palavra mais apropriada era obsessão.

Desde que pusera as mãos naquele sombrio tomo, Randal não parou mais de lê-lo. A cada noite que passava em claro, aprimorando-se nas nuances da língua, absorvendo cada detalhe sobre demônios e entidades das trevas que habitavam os planos inferiores de existência, Randal ia se tornando mais frio, mais insensível, ou talvez mais maligno... assim como aquelas criaturas de que o livro falava.
Não podia deixar de admirar as qualidades do irmão. Como ele aprendera aquela antiga língua morta em tão pouco tempo, a ponto de conseguir ler com fluência um livro quase inteiro. Era um livro sobre demônios. Como contatá-los e como pedir favores.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Cabaret tocou, mas não vi

Saímos do casamento de um amigo, eu, minha patroa e um amigo. Passei em casa para tirar o terno, deixar minha esposa e partimos para Guadalupe. Eu e meu fiel companheiro de perrengues e furadas em geral.
Uma festa junina de rua complicou a chegada na Lona Cultural, mas não desanimamos. Paramos o carro e fomos a pé. Uma chuva fina começou a cair. Nada disso desanima a dupla de roqueiros.
Chegamos finalmente na porta da Lona. Uma banda desconhecida tocava um rock consistente lá dentro, que se fazia ouvir mesmo na rua com um axé music da festa junina enchendo o saco. Trocamos uma idéia com o segurança e veio a notícia: Cabaret já havia tocado. Se apresentou por volta das 21 horas. Só chegamos lá às 22:30. Rolava a oitava banda da noite que havia começado às 18:30!
Mas roqueiro que é roqueiro não entrega os pontos. Comemos um podrão com uma coca-cola e partimos para a rua Ceará. Cerveja Bohemia de garrafa a R$3,50 e rock rolando na Juke Box, majoritariamente heavy metal. Pé-sujaço, garotada de preto, mais meninas bonitas do que eu poderia esperar. Nada de mais. Porém foi bom ver que o roquenrol avança sobre o território da VM.